Tuesday, February 28, 2006
NETZACH
Da mesma forma que Hod significa o mental e a forma que se dá ao plano intelectual, Netzach representa os instintos e as emoções. Esta séfira trata do plano emocional e instintivo. Em Netzach tudo é mais "percebido" do que intelectualizado. Mas as atividades de Netzach não podem ser separadas de Hod. As duas séfiras formam um par funcional. Poderíamos dizer que os dois verbos mais adequados para as duas séfiras seriam: pensar (Hod) e sentir (Netzach).Compreenderemos Netzach se entendermos que é nessa esfera que se trabalha e se integra toda a nossa afetividade e os nossos instintos. Enquanto Hod intelectualiza, Netzach sente e percebe. Enquanto Hod é ligado à palavra escrita e falada, portanto aos comunicadores: escritores e oradores, Netzach é associada aos pintores, músicos e poetas. Quando falamos de Amor, sensibilidade e emoção, estamos atuando em Netzach. Nas antigas civilizações eram incluídas em Netzach todas as atividades onde entra o Afeto, seja a camaradagem entre os guerreiros, seja o relacionamento entre professor e aluno, seja o amor entre um homem e uma mulher. No cumprimento da função sexual, várias séfiras entram em ação. Em Netzach há o relacionamento e interação sutil da força vital entre dois fatores: fluxo e refluxo, estímulo e reação, mas ultrapassando e muito a esfera do sexo. Ela atua também em outros níveis de consciência. Através de um sutil magnetismo, inspira a mente, e a mente dirige as emoções. As emoções, por sua vez, assumem a atividade do duplo etéreo, que por sua vez atua no veículo físico. A tríade formada por Yesod, Hod e Netzach, unem a criação, mente e coração (Emoção).
Tuesday, February 21, 2006
criador-criação-criatura

Acerca da ilusão sobre a natureza das coisas
"Do ponto de vista teológico, e cingindo-nos à dogmática católica, a Criação é entendida como um acto divino que, não contando com qualquer forma preexistente de matéria, se efectivou a partir do nada absoluto. A este respeito, a doutrina distingue três aspectos, que são: “Criação primeira e imediata” - Deus produziu a matéria de que se compõem todas as coisas; “Criação segunda e mediata” – Deus organizou a matéria e formou todos os seres; “Criação contínua”- Deus conserva o Mundo e concede-lhe a existência a cada momento.
Esta concepção, constitui uma excepção, introduzida pela tradição espiritual hebraica, nas doutrinas da antiguidade, fundamentalmente distribuídas por duas linhas: a dualista, segundo a qual Deus teria feito o Mundo de uma matéria preexistente e a panteísta, em que o Mundo se apresenta como uma manifestação da natureza e substância divinas.
Assim, os doutores da Igreja afirmam que o acto criador é eterno nos seus princípios embora, nos seus efeitos – o conjunto das criaturas – ele esteja submetido à lei do Tempo.
Tal distinção remete-nos, de pronto, para a polaridade estabelecida entre Criador e criatura, sendo que de Um se pode dizer que actuou, actua e actuará na esfera dos princípios, que se caracteriza pela eternidade e da outra, que actuou e actua no Mundo dos efeitos, submetido à regra do Tempo.
Entre muitas outras, esta razão bastará para estabelecer a diferença de natureza entre O Criador e a criatura, ou entre a Criação como causa absoluta e transcendente e os efeitos que dela provêm, na forma do Mundo criado. Do Criador pode dizer-se que É e, da criatura, simplesmente que existe. O acto criador foi único porque instantâneo, já que instante e eternidade são a mesma coisa, quando e onde a lei do Tempo não tem lugar. Os “dias” da Criação não correspondem a qualquer cronologia, eles são o modo de encadear, em termos meramente lógicos, consequências instantâneas de um acto, ele próprio instantâneo, na sua eternidade.
O uso e abuso da palavra, conduz inexoravelmente à perda do seu real significado, que está na origem da formação de todos os vocábulos; por isso e em verdade, nenhuma criatura pode, pela sua própria natureza, ser simultaneamente “criador” do que quer que seja. Como bem se viu, e do ponto de vista doutrinário que defendemos, o Criador obrou a partir do nada absoluto, enquanto a criatura terá forçosamente que obrar a partir de um Mundo preexistente, esse mesmo em que ela se insere e do qual é parte integrante.
Expressões como “criadores” de galinhas, às quais chamam a sua “criação”, ou os “criados” da casa, porque nela nasceram e cresceram, não passam de termos correntes, de que percebemos o sentido, mas cujo uso inadequado banaliza uma concepção espiritual constituída como eixo da toda a realidade manifestada. A indústria de avicultura, independentemente das manipulações químicas ou genéticas, continua sem poder produzir frangos do nada, do mesmo modo, uma casa pode ter muitos “criados” que nenhum deles, certamente, nasceu sem progenitores, ainda que gerado in vitro , ou sem matéria preexistente, em caso de clonagem.
Evidentemente, todo o nascimento corresponde ao modo de “Criação contínua”, conforme anteriormente ficou definido; no entanto, tal facto não confere a quem controla os nascimentos a qualidade de "criador", qualidade essa, que nem os próprios progenitores do nascituro podem reivindicar.
Mas não só. Por vezes ouvem-se afirmações como por exemplo: “os cães criam pulgas”. E, neste caso, os próprios canídeos saem da sua humilde condição, para se tornarem, eles também, “criadores”, quando, na verdade, não fazem mais do que proporcionar aos desagradáveis parasitas um meio propício à sua proliferação.
E que dizer da tão vulgarmente celebrada “criação” artística? O modo penoso como a espécie dos mamíferos desenvolveu um aparelho auditivo que permitisse ao homem o acesso a uma subtil diferenciação de sons; a lentidão desesperante como evoluíram os instrumentos musicais até se chegar à grande orquestra; a remota origem das técnicas instrumentais, tonais, de contraponto, etc; nada disso parece contar como matéria preexistente, quando um músico oitocentista compõe uma bela sinfonia e, por isso, só por isso, tem honras de “criador”.
Igualmente, nas artes visuais, todo o lento labor para a sujeição da matéria informe à ideia humana parece irrelevante, como antecedente condicionante, frente à súbita irrupção de um inspirado tido como “criador”, como se ele fosse o autor de todos os antecedentes ao eclodir da sua obra – o que, mesmo a verificar-se, não bastaria para fazer dele um Criador - ou tivesse alcançado resultados a partir de nada.
Particularmente caricata é a designação de “criador de moda” e isto porque se aplica uma ideia de eternidade, a Criação, ao artefacto humano mais sujeito à corrupção do Tempo.
A inspiração dos autores, fenómeno a que a moderna teoria de Arte é alheia ou simplesmente omissa, constitui, provavelmente, um dos temas que, passando pela atribuição de genialidade ao inspirado, conduz à ideia da “criação” artística, na convicção de que algo de radicalmente novo foi obtido, constituindo um valor acrescido, no conjunto da obra humana.
Não cabendo aqui desenvolver o tema da inspiração artística, convém, no entanto atender ao seu sentido e significado. Esta ideia da inspiração artística provem da cultura clássica; segundo ela, as Musas produziam um estímulo subtil, na consciência mais profunda do artista, e este absorvia-o, como se inalasse um perfume, ou inspirasse uma sugestão. A obra que daí surgia e que era o resultado material de um autor humano, não deixava por isso de ter uma outra autoria, mais alta, não material e não humana, já que fora gerada pela vontade divina e transmitida pelo lampejo inspirador das Musas. Na verdade, segundo o Génesis mosaico, o Homem não tinha por tarefa sagrada criar o Jardim do Éden, mas apenas cuidar dele, inspirado pela vontade divina.
Outra questão que frequentemente configura, de modo ilusório, a noção de criação artística é a ideia de originalidade, associada aos conceitos do inédito radical, do inteiramente novo. No que respeita às novidades é sempre necessário lembrar que a realidade é muito mais exígua do que as modernas ideias de infinitude e de quantidade, podem fazer parecer.
Com efeito, a realidade “move-se” num quadro de possibilidades mais ou menos restrito e hermético, já que, desde a Criação, nenhuma nova possibilidade pode ser adicionada às que foram estabelecidas no próprio acto criador. No entanto, o número indefinido de possibilidades permite um número indeterminado de interacções, muitas delas susceptíveis de produzirem uma ilusão de novidade absoluta; e dizemos absoluta porque, algumas interacções, tendo aparecido pela primeira vez num tempo histórico, constituem, em determinado grau e nesse tempo, uma novidade.
Os resultados das interacções entre vários elementos da realidade conduzem invariavelmente ao produto das partes que os compõem e, de modo algum, a novas partes ou novos produtos.
Os resultados de uma Arte vivendo na procura obsessiva da originalidade, num mundo marcado pelo fastio permanente, conduzem todo o processo artístico ao seu ponto de partida, do mesmo modo que o penedo de Sísifo resvalava sistematicamente para o seu lugar original. Nada há de novo. No palco da realidade representa-se uma única peça, variando apenas cenários e guarda-roupa. O único encanto é que a representação seja boa. "
Carcavelos, Janeiro de 2001.
Carlos Dugos
Friday, February 17, 2006
PRECE JUDAICA

"Guia-me luz gentil,
Através das trevas circundantes.
Guia-me em frente.
Escura é a noite e estou longe da luz.
Guia os meus passos pois não peço para ver o futuro distante,
Um passo só me basta.
Enquanto o teu poder me abençoar,
Guia-me através de penhascos e atoleiros.
Até que ao alvorecer me sorriam os anjos,
Que há tanto tempo amei e depois perdi."
Saturday, February 11, 2006
TEUS OLHOS COR DE MEL


Das palavras que trazes afogadas,
Das tuas mãos de flor, olhos de mel,
Dos teus cabelos lisos as cores das madrugadas.
A tua joia cintilante são os doentes.
Do teu andar vem a fúria bater-te.
Dos teus gestos que fazes sentes.
Onde estivermos há-de estar o vento.
Nú na chuva e no fogo.
Herois castrados e malditos, combatemos.
Todos sofremos,
Os estilhaços dos ferros ocultos
O mesmo sal que foi feito do mesmo sangue,
E todos dormimos como putos.
E na chama das nossas mesas esqueçemos.
Tu me dirás, flor que nós existimos.
Tu me dirás, flor que nascemos das árvores.
Que viémos, amámos e partimos
No teu perfume raro nasce a palavra do nada.
Tu que me dizes flor, e no vento sorrimos
A esta semente selvagem.
E no silêncio canto a dureza da montanha de lava.
Penso no colar das tuas horas.
E o casulo, também o teu encanto
E no colo do meu silêncio tu choras.
Volta outra vez ao mundo para eu poder dormir.
Devoro as minhas lágrimas e o medo,
Enquanto a fome me doi.
Volta outra vez ao mundo para tu sorrires.
Teus olhos de boa artesã,
Eu poeta das cores
Tu flor a esperança do amanhã.
Morro aos poucos de ternura,
E a minha aventura o caldo da minha infância,
Certo é os teus olhos são a tua cura.
Neste social baile dos malditos,
Pareces estar tão longe e estás tão perto.
Forjo as cores e as formas num silêncio de gritos.José Pires
Sunday, February 05, 2006
PRECE
Saturday, February 04, 2006
CAMINHOS

(...)"Eu não acredito na imortalidade de coisa alguma; e embora um poema deva valer por si próprio, como obra independente do autor e da sequência da criação a que este foi dando, eu todavia penso que é mais importante, humanamente, o espírito de peregrinar que o facto conclusivo de haver visitado lugares santos. Na peregrinação, que é a nossa vida, muito mais somos visitados do que visitamos. Diário íntimo ou fastos espiritualmente autobiográficos – a poesia é mais do que isso. A co-responsabilidade do tempo e nossa, que é a única garantia de uma autenticidade - pois que será esta senão a busca de uma verdade que está para lá da actividade estética , e que a actividade estética não tem por fim achar, mas testemunhar que insatisfeitamente ela é buscada? -, ultrapassa precisamente o solipsismo inerente mesmo à mais convincente das criações poéticas , e concede à poesia uma paradoxal objectividade que as fabricações da perfeição artista são incapazes de atingir, por demasiado dependentes do gosto, quando o testemunho vale pela reflectida espontaneidade que apela e apelará sempre para a comunhão de todos os inquietos, todos os insatisfeitos, todos os que exigem do mundo, para os outros, a generosidade que lhes foi negada."Jorge de Sena
CRIAR OU REPETIR

ÉS CRIADOR OU REPETIDOR?
de Luís Martins Simões, da Editora Angelorum Novalis
O ser humano não cresce quando repete. Só cresce quando utiliza o seu poder criador.Há muitos anos que vamos repetindo o passado e tentando melhorá-lo no futuro. E não resulta.No entanto, no ensino, nas escolas, no teu quotidiano, ensinam-te a repetir e verificam se repetes bem.A evolução humana nunca se coadunou com repetição. O ensino é uma repetição, a vida quotidiana é uma repetição, a vida com os amigos é repetição, a vida em família é repetição, as religiões são repetição.E o mundo não funciona.Este livro ajuda-te a perceber de onde vem o teu poder criador e a descobrir como utilizá-lo.Muitos não sabem, mas temos todos a opção de viver a nossa vida como repetidores ou como criadores.
Friday, February 03, 2006

"Hordas de brutos tentam tomar de assalto o templo sagrado da Espiritualidade. São estupradores emocionais, que querem arrombar a porta dos arcanos celestes, mas sem possuírem as credenciais de paz e luz em seus anseios violentos. Não possuem os pré-requisitos básicos para as empreitadas na luz superior. São brutais no assédio, mas fracos de espírito por dentro. Almejam o poder, não a sabedoria.O mundo está cheio dessas hordas de brutos confusos, e o amor passa longe de seus corações. A Grande Luz é generosa, mas conhece os segredos e as intenções de todos. Por isso o acesso aos portais espirituais, que levam aos planos superiores, só é permitido àqueles que apresentarem as condições luminosas compatíveis com os objetivos colimados.“Quem quer mais luz, que apresente luz em seu serviço e em seus objetivos”
REDENÇÃO

Ergue-te Gigante - Empunha o facho.
É tempo de o Mundo iluminares.
Chega de trevas. Abaixo a rebeldia
Que Te lançou em cadeias milenares.
Serpente antiga - Dragão misterioso
Expulso do trono que traíste.
É tempo de voltares às estrelas
Reocupando o lugar donde saíste.
Olha o Firmamento, a Via-Láctea,
E verás ali o Teu lugar primeiro,
Escuro, sombrio como silício,
Saco de Carvão, junto ao Cruzeiro.
Naquela cruz celeste das estrelas
O Teu bendito Irmão crucificado
Verás, sangrento, sofredor cativo,
Para arrancar-te à senda do pecado.
Empunha o facho e vem,
O Teu trono está limpo e redimido
A espera de Ti para reinares
Sobre um Mundo que por Ti foi corrompido.
É tua vez agora de apagar
O incêndio que no Mundo começaste,
É tua vez agora de colher
A semente que no Mundo semeaste.
Redimido estás, volta a brilhar
Luciferina chama os Céus Te esperam
Anjo da Luz! Retoma o facho!
____________________
Santarém, janeiro de 1955
Eymar Franco
Dhâranâ 11/12, 1956
Sunday, December 11, 2005
vino y aceite
Santos Otero: «El amor espiritual es vino y bálsamo. De él gozan los que dejan ungir con él, pero también aquellos que son ajenos a éstos, con tal de que los ungidos continúen (a su lado). En el momento en que los que fueron ungidos con bálsamo dejan de (ungirse) y se marchan, quedan despidiendo de nuevo mal olor los no ungidos que tan sólo estaban junto a ellos. El samaritano no proporcionó al herido más que vino y aceite. Esto no es otra cosa que la unción. Y (así) curó las heridas, pues el amor cubre multitud de pecados.»
Magdalena
Martim de Castro do Rio, s.d. (XVI) 
Magdalena de amor toda roubada
Confusa, triste, só, sem lus, sem guia
Busca fora de sy, quem nella hia
Com passos desiguaes, e alma abrazada
Não teme a noute, as guardas, a jornada
Porque não tinha vista nem sentia
Que o coração, seu mestre o possuhia
E os olhos sem o ver, não viao nada
Chorando chega emfim onde dezeja
Vazio acha o sepulchro, de Anjos cheyo
Que o lugar de Jesu so elle o peja
Mas como de o achar o melhor meyo
São Lágrimas de Amor,quer Deos que seja
Nelas viuo, quem morto buscar veyo.

Magdalena de amor toda roubada
Confusa, triste, só, sem lus, sem guia
Busca fora de sy, quem nella hia
Com passos desiguaes, e alma abrazada
Não teme a noute, as guardas, a jornada
Porque não tinha vista nem sentia
Que o coração, seu mestre o possuhia
E os olhos sem o ver, não viao nada
Chorando chega emfim onde dezeja
Vazio acha o sepulchro, de Anjos cheyo
Que o lugar de Jesu so elle o peja
Mas como de o achar o melhor meyo
São Lágrimas de Amor,quer Deos que seja
Nelas viuo, quem morto buscar veyo.
Pistis Sophia
I. P. Couliano: «Le mythe gnostique de Sophia est, si possible, encore plus patriarcal que le mythe biblique de la chute. Aucun rapport ne semble exister entre lui et cette position particulière que certains textes gnostiques réservent à Marie-Madeleine, l’initiée par excellence.» Segundo Ireneu :«Al no poder rebasar el Límite, por estar entrelazada con la pasión, y al quedar abandonada sola en el exterior, cayó en toda clase de pasión multiforme y variada. Padeció tristeza , porque no había compreendido; temor de perder la vida como había perdido la luz; e además perplejidad. Todo esto lo sufrió en ignorancia. Y no le acaeció, como a su madre, la primera Sabiduría y éon, sufrir alteración con estas pasiones, sino contrariedad. Mas le sobrevino también una disposición distinta, la conversión al dador de vida. Tal fué, según enseñan, la constitución en su substancia de la materia, de la que provino este mundo. En la conversión tiene su origen toda el alma del mundo y la del Demiurgo, las démas cosas recibieron su principio del temor y de la tristeza. De las lagrimas de aquélla provino toda la substancia húmeda, de su risa la substancia luminosa, de la tristeza y el estupor los elementos corporales del mundo. Pues a veces lloraba y se acongojaba, según dícen, por haber sido abandonada sola en la oscuridad y en el vacío, a veces daba en pensar en la luz que la habia abandonado y entonces cobrava ánimos y reía, para volver luego a sus temores y quedar de nuevo sumida en consternación y estupor.» O papel central dos “arrependimentos” no processo de salvação de Pistis Sophia torna-se claro quando se verifica que o termo original traduzido por arrependimento vem da palavra grega metanoia, termo que originalmente significava mudança de estado mental ou dos conteúdos mentais que, por sua vez, leva ao arrependimento. Portanto, o longo processo de salvação de Pistis Sophia é a progressiva transformação dos estados mentais do homem, que possibilita sua libertação do caos, que ocorre simultaneamente com a apoteótica ascensão de Jesus ao Alto. Assim, a salvação da natureza inferior do homem é coincidente com a glorificação de sua natureza superior, simbolizada pelo Mestre. As diferentes etapas da salvação de P.S. são apresentadas em correspondência com as cinco grandes Iniciações, indicando as expansões de consciência por que passa a alma, incluindo sua iluminação e a dolorosa ‘noite escura da alma’, até sua libertação final da matéria. Curiosamente, essa fórmula para a libertação, a transformação da mente, é a mesma exposta na doutrina budista, indicando que os ensinamentos esotéricos dos grandes Mestres parecem originar-se de uma fonte única de sabedoria.
Friday, December 09, 2005
Uma criança disse:

Uma criança disse:
"um anjo é uma gaivota."
"Um anjo é um homem como os outros: o que é tem asas."
E outras:
"Um anjo é um pássaro cantador."
"Um anjo é uma andorinha. Tem uma coroa."
"Um anjo é um homem que tem o sol pendurado atrás da cabeça."
E uma outra sonhou que tinha engolido o sol.
Crianças trespassadas pela sua própria exactidão.
Crianças são as letras antigas com que se escreve a única palavra insuportavelmente viva.
Crianças são o instante onde
as liras e os dedos são uma única rosa.
( Herberto Helder )
ÍNDIOS NORTE AMERICANOS

Os dois Lobos
Um ancião índio descreveu os seus conflitos internos da seguinte maneira:- Dentro de mim tenho dois lobos. Um deles é cruel e mau. O outro é muito bom. Os dois lobos estão sempre à briga.Quando lhe perguntaram qual o lobo que ganhava a briga, o ancião respondeu: - Aquele que eu alimentar.
Lenda Sioux da Águia e do Falcão!
Conta uma velha lenda dos índios Sioux, que uma vez, Touro Bravo, o mais valente e honrado de todos os jovens guerreiros, e Nuvem Azul, a filha do cacique, uma das mais formosas mulheres da tribo, chegaram de mãos dadas, até a tenda do velho feiticeiro da tribo ... - Nós nos amamos... e vamos nos casar - disse o jovem.- E nos amamos tanto que queremos um feitiço, um conselho, ou um talismã... alguma coisa que nos garanta que poderemos ficar sempre juntos... que nos assegure que estaremos um ao lado do outro até encontrarmos a morte. Há algo que possamos fazer?E o velho emocionado ao vê-los tão jovens, tão apaixonados e tão ansiosos por uma palavra, disse:- Tem uma coisa a ser feita, mas é uma tarefa muito difícil e sacrificada...Tu, Nuvem Azul, deves escalar o monte ao norte dessa aldeia, e apenas com uma rede e tuas mãos, deves caçar o falcão mais vigoroso do monte e traze-lo aqui com vida, até o terceiro dia depois da lua cheia. E tu, Touro Bravo - continuou o feiticeiro - deves escalar a montanha do trono, e lá em cima, encontrarás a mais brava de todas as águias, e somente com as tuas mãos e uma rede, deverás apanhá-la trazendo-a para mim, viva! Os jovens abraçaram-se com ternura, e logo partiram para cumprir a missão recomendada... no dia estabelecido, à frente da tenda do feiticeiro, os dois esperavam com as aves dentro de um saco.O velho pediu, que com cuidado as tirassem dos sacos... e viu eram verdadeiramente formosos exemplares...- E agora o que faremos? - perguntou o jovem - as matamos e depois bebemos a honra de seu sangue? Ou cozinhamos e depois comemos o valor da sua carne? - propôs a jovem.- Não! - disse o feiticeiro, apanhem as aves, e amarrem-nas entre si pelas patas com essas fitas de couro... quando as tiverem amarradas, soltem-nas, para que voem livres...O guerreiro e a jovem fizeram o que lhes foi ordenado, e soltaram os pássaros... a águia e o falcão, tentaram voar mas apenas conseguiram saltar pelo terreno. Minutos depois, irritadas pela incapacidade do voo, as aves arremessavam-se entre si, bicando-se até se machucar.E o velho disse: Jamais esqueçam o que estão vendo... este é o meu conselho. Vocês são como a águia e o falcão... se estiverem amarrados um ao outro, ainda que por amor, não só viverão arrastando-se, como também, cedo ou tarde, começarão a machucar-se um ao outro... Se quiserem que o amor entre vocês perdure...Voem juntos mas jamais amarrados".
LENDA DA TORRE DA PRINCESA

Quando a cidade de Bragança era ainda a aldeia da Benquerença, existia uma princesa bela e órfã que vivia com o seu tio, o senhor do Castelo. A princesa tinha-se apaixonado por um jovem nobre e valoroso mas pobre, que também a amava, e que tinha partido para procurar fortuna, prometendo só voltar quando se achasse digno de a pedir em casamento. Durante muitos anos a princesa recusou todas as propostas de casamento até que o tio resolveu forçá-la a casar-se com um nobre cavaleiro seu amigo. Quando a jovem foi apresentada ao cavaleiro decidiu contar-lhe que o seu coração era do homem por quem esperava há 10 anos, o que encheu de cólera o tio que resolveu vingar-se. Nessa noite, o senhor do Castelo disfarçou-se de fantasma e entrando por uma das duas portas dos aposentos da princesa, disse-lhe que esta seria condenada para sempre se não acedesse a casar com o cavaleiro. Quando estava a ponto de a obrigar a jurar por Cristo, a outra porta abriu-se e, apesar de ser de noite, entrou um raio de sol que desmascarou o falso fantasma. A partir de então a princesa nunca mais foi obrigada a quebrar a sua promessa e passou a viver recolhida numa torre que ficou para sempre lembrada como a Torre da Princesa. As duas portas ficaram a ser conhecidas pela Porta da Traição e a Porta do Sol.Fonte: Diciopédia 2000
Thursday, December 08, 2005
cANÇÃO DE OUTONO

Canção do Outono
Os soluços graves Dos violinos suaves Do outono Ferem a minh'alma Num langor de calma E sono. Sufocada, em ânsia, Ai! quando à distância Soa a hora, Meu peito magoado Relembra o passado E chora. Daqui, dali, pelo Vento em atropelo Seguida, Vou de porta em porta, Como a folha morta Batida...
Paul Verlaine
MORRE LENTAMENTE

Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem destrói o seu amor-próprio, quem não se deixa ajudar.Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito, repetindo todos os dias o mesmo trajecto, quem não muda as marcas no supermercado, não arrisca vestir uma cor nova, não conversa com quem não conhece.Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o "preto no branco" e os "pontos nos is" a um turbilhão de emoções indomáveis, justamente as que resgatam brilho nos olhos, sorrisos e soluços, coração aos tropeços, sentimentos.Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho, quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho, quem não se permite, uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da má sorte ou da chuva incessante, desistindo de um projecto antes de iniciá-lo, não perguntando sobre um assunto que desconhece e não respondendo quando lhe indagam o que sabe.Evitemos a morte em doses suaves, recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior do que o simples acto de respirar. Estejamos vivos, então!
Pablo Neruda
Wednesday, December 07, 2005
Rosas pálidas

Judith Teixeira, 1925
Rosas pálidas
Ó anémicas! ó pálidas!
Ausentou-se o sangue
Das vossas veias delicadas...
Ó sombras vagas
Duma vida exangue!
Ó virgens aladas!...
Nunca pode encantar-me essa candura
da vossa serena
brancura.
E jamais eu tive
um amplexo de amor
em que no meu peito
se esmagasse
a vossa carne de chorosa Madalena
sem gritos e sem cor...
Ó flébeis, doentias!
- o meu olhar procura a ardência
forte e colorida
das vossas irmãs
rubras e sadias!...
A vida é beijada pelo sol
e ungida pela dor!
Deixai que o sol fecunde o vosso seio...
E que o vento vos beije
em convulsões brutais,
em convulsões pagãs!
A luxúria, ó pálidas irmãs,
é a maior força da vida!
Sensualisai pois! A vossa carne
Arrefecida...
Ó brancas, imaculadas!
Ó virgens inúteis
e decepadas...
In Judith Teixeira, Poemas, (Lisboa: &etc), 1966, pp. 163-64;
a morte dos poetas
A lua estava pela metade
Quando tu partiste.
Lavaste as tuas calças pretas
Como nunca tinhas feito;
Passaste as cinco camisas
Para poderes vir buscar as outras
Como nunca tinhas feito;
Nunca mais vieste buscar as camisas…
Nem trazer a metade que roubaste à lua.
II
Agora que sequei
Podes regar o pó dos dias
Com a tua passada
Como antes eu regava as rosas:
Como o vidro dos outros nos desconhece!
Fecho com cuidado maternal o grito
Dentro das persianas;
Ato à roda dos cabelos da noite
Uma franja de riso no negro do céu:
Peço à noite, a dos gestos sossegados,
A serva humilde,
Que leve nos cabelos a poeira de luz
Que ilumina a janela do outro lado.
Ainda sou eu, mesmo que o dia raie
E eu não me veja de outra cor que as rosas
Brancas dos mármores e dos lírios.
Como se branca morrendo eu me não visse
Da cor dos lagos que me reflectem dormindo
Quando a lua é barco fugido do negro dos céus.
Eu sou um navegante de palavras...
Dou ao mar o rumor do vento falso,
Falho todas as rotas, acerto a tempestade
E, por querer perder-me, achei surpresa
Quando me vi parada olhando o longe.
Chamei por mim como numa montanha
O eco segue a voz que ali não houve
E o silêncio é espesso como o abismo
Onde me deito todas as noites da viagem
Que o tempo engole porque o filho é dele.
E a lua, no seu ventre liso e frio,
Chama à terra firme a sombra do navio
Onde outrora julguei ter embarcado.
Não fui eu que cheguei chorando,
Era outra a nau e a voz era emprestada.
Chamei por mim, de novo, e de novo
O vento frio fustigou a minha voz
E abriu no mar uma falsa clareira,
Um breve errar de luz.
III
Que agonia, a lenta espera
Por uma imagem que resolva o dia!
Que incerteza nas vozes e nos risos e nas lágrimas...
Que estranheza de ser me invade e narra, enfim.
A história de um vazio contra o vazio que há no dia.
O tempo explica, empurra, arrasta a contingência
De ser a anónima expressão de muitos rios parados,
A história que nunca foi porque não tinha que ser.
E contudo, ser humano e sadio como as bestas,
Transbordou do céu nesta paisagem de chumbo
Com o olhar perdido
Com que o poema dá às pombas a brancura,
Ao céu o movimento de asas soltas.
Olho os astros e o meu olhar de terra
Faz sementeira de asas no polimento escuro.
Que palavra de voo ágil e leveza eterna,
Mapa sem escala na inexistência das viagens,
Dará no chão do céu reflexos de poema?
Não dês à sílaba ca´da na palavra como gota de água
Senão o sopro que enfola as bandeiras e as ondas.
Fá-los voar, esses rumores secretos e profundos.
Abre as vogais frente aos navios, o cais
É um perfil de vento para as gaivotas, de longe…
Atira as sibilantes para a montanha, vê-as cair no mar
A pingar a voz da saudade num movimento de alma,
Num poema infinito, renascido a cada ditongo de mel e astros,
De azul e espuma, de flocos de tristeza.
Guarda no côncavo da mão a concha misteriosa
E, se um deus tem sede,
Que beba dessa mão as lágrimas que não choro.
IV
Quem me trouxera um licor de ambrósia
Para sorver do ar este pano de vento
Que se me prende ao rosto,
Que me persegue em finisterra, finistempo, véu.
Somos do ar quando seguimos
Pelo branco dos olhos o rumor das aves.
O nosso corpo é leve como a nossa vontade
De respirar a pausa no intervalo da voz,
A flor sem flor que adormeceu sem astros,
A flor sem ramos arrancada e nua
Sem amanhã para as mãos.
Um nada rodeado de nada
Para arder em silêncio.
Vem, ágil pomba negra da noite,
Cobrir com a tua grande asa
A memória
Por onde a nossa inquietação andou perdida
Como em palco deserto.
Só desta vez, só uma vez, ainda,
Colhe essas rosas de saudade.
Coloca na jarra os caules com tamanhos desiguais
E dispõe, assim, de mim, em memória,
Em cada laço que faço.
V
Em cada laço que faço
Perfaço o traço,
Baço o dia lasso
Que atiro do terraço
Ao espaço.
Faço laçografias
Solto o sonoro laço.
Em cada espaço de dias
Uma folha aponta ao norte,
A mais pequena e frágil;
Para o sul vira a rosa vermelha,
A de sangue e de vida;
A outra, branca e triste,
Atira-a para o mar
Onde Ofélia
Anda perdida ainda.
Que dessas rosas, tantas,
Que a jarra contém
Possa ficar a mais viçosa,
A rosa do amor,
A que nunca morre
E só em saudade se colhe.
VI
Bebo uma lágrima quente e o sal que me sabe
Desagua no mar o desejo de distância.
Por dentro do mar é onde deve estar
Quem assim se entrega ao acaso das marés.
Só para ouvir o rumor antiquíssimo
Dei por ganha a viagem e o naufrágio.
Perdida, nunca estive tão perto de saber
Que nunca é a mesma água.
Ouvimos outro som quando julgamos
Atravessar as pontes com outros barcos em baixo
E outras viagens por dentro da nossa viagem –
E por não o sabermos é que vamos na amurada
Como um embrulho ali deixado pelos deuses.
Mas que sopro invisível se liberta
Da ideia de vento que o telhado abriga
Para deitar o sonho antes da hora?...
Como andavas perdida, entre quintais,
Ó vinha da tristeza, ó canto chão!
Ó melodia adormecida nos meus ouvidos!
Ó mão que afaga, ó colo que se oferece,
Ó noite equilibrista
Na luz quente de um circo de lona,
Numa campânula, numa bolha de água morna
A querer fugir pela janela.
Devolve-me ao meu país do mar
E deixa-me dormir no coração das ondas
Que os poetas também morrem,
Mas morrem mais devagar do que nós.
A morte dos poetas
É qualquer coisa que continua a ser árvore
Mesmo sem a raiz ou para além dela.
A morte do poeta começa muito antes
Da noite e do dia da nossa mesma morte.
A morte dos poetas é uma ficção nossa
Como a vida é uma ficção de poetas. fRANCISCO SOARES (COLAGEM COM POEMAS DE MARIA SARMENTO)
taquicardia

Taquicardia
Delírios de febre, suor e arrepios, me toma de assalto uma taquicardia: o pulso acelera assim de repente, me sinto doente...
Os olhos vidrados, a boca silente. Sutil calafrio, qual sombra da morte, percorre a espinha. Na louca agonia espasmos, tremores...
é a vida que parte? São males? São dores? Que nada... São só ais de amores...
(eliane stoducto)
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