Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos se não fora
A mágica presença das estrelas!
Mario Quintana - Espelho Mágico
Friday, September 01, 2006
Sophia de Mello Breyner Andressen
Mar sonoro,
mar sem fundo, mar sem fim.
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho.
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim.
mar sem fundo, mar sem fim.
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho.
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim.
Pedro Homem de Mello
Rasguei o cabelo ao Sol.
Rasguei os ombros à Lua.
Rasguei os dedos aos rios.
Rasguei os lábios às rosas
E rasguei o ventre aos frutos
E a garganta aos rouxinóis.
Mas ninguém (nem mesmo tu!)
Viu que em tudo o que eu rasgava
Era a imagem do teu corpo
Branco,
Firme,
Intacto,
Nu.
Rasguei os ombros à Lua.
Rasguei os dedos aos rios.
Rasguei os lábios às rosas
E rasguei o ventre aos frutos
E a garganta aos rouxinóis.
Mas ninguém (nem mesmo tu!)
Viu que em tudo o que eu rasgava
Era a imagem do teu corpo
Branco,
Firme,
Intacto,
Nu.
Manuel Alegre
Contar-te longamente as perigosas
coisas do mar. Contar-te o amor ardente
e as ilhas que só há no verbo amar.Contar-te longamente longamente.Amor ardente. Amor ardente. E mar.
Contar-te longamente as misteriosas
maravilhas do verbo navegar.E mar. Amar: as coisas perigosas.
Contar-te longamente que já foi
num tempo doce coisa amar. E mar.Contar-te logamente como doi
desembarcar nas ilhas misteriosas.
Contar-te o mar ardente e o verbo amar.E longamente as coisas perigosas.
coisas do mar. Contar-te o amor ardente
e as ilhas que só há no verbo amar.Contar-te longamente longamente.Amor ardente. Amor ardente. E mar.
Contar-te longamente as misteriosas
maravilhas do verbo navegar.E mar. Amar: as coisas perigosas.
Contar-te longamente que já foi
num tempo doce coisa amar. E mar.Contar-te logamente como doi
desembarcar nas ilhas misteriosas.
Contar-te o mar ardente e o verbo amar.E longamente as coisas perigosas.
Joaquim Pessoa
Bastava-nos amar.
E não bastava o mar.
E o corpo? O corpo que se enleia?
O vento como um barco: a navegar.Pelo mar.
Por um rio ou uma veia.Bastava-nos ficar.
E não bastava
o mar a querer doer em cada ideia.Já não bastava olhar.
Urgente: amar.E ficar. E fazermos uma teia.Respirar.Respirar.
Até que o mar
pudesse ser amor em maré cheia.E bastava.
Bastava respirar a tua pele molhada de sereia.
Bastava, sim, encher o peito de ar.
Fazer amor contigo sobre a areia.
Joaquim Pessoa
E não bastava o mar.
E o corpo? O corpo que se enleia?
O vento como um barco: a navegar.Pelo mar.
Por um rio ou uma veia.Bastava-nos ficar.
E não bastava
o mar a querer doer em cada ideia.Já não bastava olhar.
Urgente: amar.E ficar. E fazermos uma teia.Respirar.Respirar.
Até que o mar
pudesse ser amor em maré cheia.E bastava.
Bastava respirar a tua pele molhada de sereia.
Bastava, sim, encher o peito de ar.
Fazer amor contigo sobre a areia.
Joaquim Pessoa
Carlos Drummond de Andrade I
Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça e com amor não se paga.
Amor é dado de graça,é semeado no vento,na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.
Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.Porque amor não se troca,nem se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,feliz e forte em si mesmo.
Amor é primo da morte,e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam) a cada instante de amor.
Carlos Drummond de Andrade
Não precisas ser amante,e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça e com amor não se paga.
Amor é dado de graça,é semeado no vento,na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.
Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.Porque amor não se troca,nem se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,feliz e forte em si mesmo.
Amor é primo da morte,e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam) a cada instante de amor.
Carlos Drummond de Andrade
Pablo Neruda

Saberás que não te amo e que te amo
posto que de dois modos é a vida,
a palavra é uma asa do silêncio,
o fogo tem uma metade de frio.
Eu te amo para começar a amar-te,
para recomeçar o infinito e para não deixar de amar-te nunca:
por isso não te amo ainda.
Te amo e não te amo como se tivesse em minhas mãos as chaves da fortuna
e um incerto destino desafortunado.
Meu amor tem duas vidas para amar-te.
Por isso te amo quando não te amo
e por isso te amo quando te amo.
Eugénio de Andrade II

Cala-te,
a luz arde entre os lábios,e o amor não contempla,
sempre o amor procura,
tacteia no escuro,essa perna é tua? esse braço?
subo por ti de ramo em ramo,
respiro rente à tua boca,
abre-se a alma à lingua,
morreria agora se mo pedisses,
dorme,
nunca o amor foi fácil,nunca,
também a terra morre.
Eugénio de Andrade
Thursday, August 31, 2006
Ricardo Reis
Eu nunca fui dos que a um sexo o outro
No amor ou na amizade preferiram.
Por igual a beleza apeteço
Seja onde for, beleza.
Pousa a ave, olhando apenas a quem pousa
Pondo querer pousar antes do ramo;
Corre o rio onde encontra o seu retiro
E não onde é preciso.
Assim das diferenças me separo
E onde amo, porque o amo ou não amo,
Nem a inocência inata quando se ama
Julgo postergada nisto.
Não no objecto, no modo está o amor
Logo que a ame, a qualquer cousa amo.
meu amor nela não reside, mas
Em meu amor.
Os deuses que nos deram este rumo
Também deram a flor pra que a colhêssemos
com melhor amor talvez colhamos
O que pra usar buscamos
No amor ou na amizade preferiram.
Por igual a beleza apeteço
Seja onde for, beleza.
Pousa a ave, olhando apenas a quem pousa
Pondo querer pousar antes do ramo;
Corre o rio onde encontra o seu retiro
E não onde é preciso.
Assim das diferenças me separo
E onde amo, porque o amo ou não amo,
Nem a inocência inata quando se ama
Julgo postergada nisto.
Não no objecto, no modo está o amor
Logo que a ame, a qualquer cousa amo.
meu amor nela não reside, mas
Em meu amor.
Os deuses que nos deram este rumo
Também deram a flor pra que a colhêssemos
com melhor amor talvez colhamos
O que pra usar buscamos
Prazer da poesia
Do prazer da poesia falou T. S. Eliot considerando-o como a primeira finalidade social da poesia. Diz ele: [...] se queremos encontrar a finalidade social essencial da poesia, teremos de examinar primeiramente as suas funções mais óbvias, aquelas que terá de realizar, para realizar quaisquer que sejam. Julgo que a primeira sobre a qual podemos ter certeza é a de que a poesia deve dar prazer. Se me perguntarem que espécie de prazer, apenas poderei responder que aquela espécie de prazer que a poesia dá [...].
Luiz Serrano
Luiz Serrano
Tuesday, August 29, 2006
Para o mar Maria ia
Para o mar Maria ia
Para o mar ia
Para o mar ia
Ao pisar a fina areia
Em hora de maré cheia
O mar ia até Maria
O mar ia até Maria
O mar ia
O mar ia
Maria
Mar em trânsito...
(eliane stoducto)
Para o mar ia
Para o mar ia
Ao pisar a fina areia
Em hora de maré cheia
O mar ia até Maria
O mar ia até Maria
O mar ia
O mar ia
Maria
Mar em trânsito...
(eliane stoducto)
Palavras de Alceu a Safo
Ó cheia de pureza,
ó Safo coroada de violetas que docemente ris:
eu te diria de bom grado certa coisa,
se não fosse a vergonha que me impede.
Resposta de Safo a Alceu
Se quisesses tão só o bom e o belo,
se em tua boca más palavras não tramasses,
não haveria essa vergonha nos teus olhos e poderias exprimir-te francamente.
ó Safo coroada de violetas que docemente ris:
eu te diria de bom grado certa coisa,
se não fosse a vergonha que me impede.
Resposta de Safo a Alceu
Se quisesses tão só o bom e o belo,
se em tua boca más palavras não tramasses,
não haveria essa vergonha nos teus olhos e poderias exprimir-te francamente.
Monday, August 28, 2006
Quatro monges
Quatro monges decidiram meditar em silêncio completo, sem falar por duas semanas. Na noite do primeiro dia a vela começou a falhar e então apagou.O primeiro monge disse:- Oh, não! A vela apagou!O segundo comentou:- Não tínhamos que ficar em silêncio completo?O terceiro reclamou:- Por que vocês dois quebraram o silêncio?Finalmente o quarto afirmou, todo orgulhoso:- Aha! Eu sou o único que não falou!
conto zen
conto zen
Não tenho nada
Um jovem monge aproximou-se de Chao-chou muito orgulhoso e eufórico, e disse:- Me desfiz de tudo o que tinha! Minhas mãos estão vazias e vim à vós com o coração sereno!- Então resta apenas desfazeres-te disso, e chegarás ao Zen.- Afirmou o mestre. - Mas, - replicou o monge - não tenho mais nada. Do que mais posso me desfazer?- Tudo bem, - comentou o sábio, - se tu queres manter o Nada que ainda carregas, fique com ele...
conto zen
conto zen
Thursday, August 24, 2006
She`s waiting for another love
Friday, August 18, 2006
Nao sei se é amor que tens
Olhando o mar, sonho sem ter de quê

Olhando o mar, sonho sem ter de quê.
Nada no mar, salvo o ser mar, se vê.
Mas de se nada ver quanto a alma sonha!
De que me servem a verdade e a fé?
Ver claro! Quantos, que fatais erramos,
Em ruas ou em estradas ou sob ramos,
Temos esta certeza e sempre e em tudo
Sonhamos e sonhamos e sonhamos.
As árvores longínquas da floresta
Parecem, por longínquas, 'star em festa.
Quanto acontece porque se não vê!
Mas do que há pouco ou não há o mesmo resta.
Se tive amores? Já não sei se os tive.
Quem ontem fui já hoje em mim não vive.
Bebe, que tudo é líquido e embriaga,
E a vida morre enquanto o ser revive.
Colhes rosas? Que colhes, se hão-de ser
Motivos coloridos de morrer?Mas colhe rosas.
Porque não colhê-las
Se te agrada e tudo é deixar de o haver?
Fernando Pessoa
A NOITE DISSOLVE OS HOMENS

A noite desceu. Que noite!
Já não enxergo meus irmãos.
E nem tampouco os rumores
que outrora me perturbavam.
A noite desceu. Nas casas,
nas ruas onde se combate,
nos campos desfalecidos,
a noite espalhou o medo
e a total incompreensão.
A noite caiu. Tremenda,
sem esperança... Os suspiros
acusam a presença negra
que paralisa os guerreiros.
E o amor não abre caminho
na noite. A noite é mortal,
completa, sem reticências,
a noite dissolve os homens,
diz que é inútil sofrer,
a noite dissolve as pátrias,
apagou os almirantes
cintilantes! nas suas fardas.
A noite anoiteceu tudo...
O mundo não tem remédio.
Os suicidas tinham razão.
Aurora,
entretanto eu te diviso, ainda tímida,
inexperiente das luzes que vais acender
e dos bens que repartirás com todos os homens.
Sob o úmido véu de raivas, queixas e humilhações,
adivinho-te que sobes, vapor róseo, expulsando a treva noturna.
O triste mundo fascista se decompõe ao contato de teus dedos,
teus dedos frios, que ainda se não modelaram
mas que avançam na escuridão como um sinal verde e peremptório.
Minha fadiga encontrará em ti o seu termo,
minha carne estremece na certeza de tua vinda.
O suor é um óleo suave, as mãos dos sobreviventes se enlaçam,
os corpos hirtos adquirem uma fluidez,
uma inocência, um perdão simples e macio...
Havemos de amanhecer. O mundo
se tinge com as tintas da antemanhã
e o sangue que escorre é doce, de tão necessário
para colorir tuas pálidas faces,
aurora.
ANDRADE, Carlos Drummond de. Poesia e Prosa. Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1983
Wednesday, May 17, 2006
lenda indiana sobre a criação da mulher
"Diz a lenda que o Senhor, após criar o homem e não tendo nada sólido para construir a Mulher, tomou um punhado de ingredientes delicados e contraditórios, tais como timidez e ousadia, ciúme e ternura, paixão e ódio, paciência e ansiedade,alegria e tristeza e assim fez a Mulher e a entregou ao homem como sua companheira.Após uma semana, o homem voltou e disse:- Senhor, a criatura que você me deu faz a minha vida infeliz.Ela fala sem cessar e me atormenta de tal maneira que nem tenho tempo para descansar. Ela insiste em que lhe dê atenção o dia inteiro...e assim as minhas horas são desperdiçadas. Ela chora por qualquer motivo e fica facilmente emburrada e, às vezes, muito tempo ociosa. Vim devolvê-la porque não posso viver com ela.Depois de uma semana o homem voltou ao Criador e disse:- Senhor, minha vida é tão vazia desde que eu trouxe aquela criatura de volta! Eu sempre penso nela, em como ela dançava cantava, como era graciosa, como me olhava, como conversava comigo e como se chegava a mim. Ela era agradável de se ver e de acariciar. Eu gostava de ouvi-la rir. Por favor, me dê ela devolta.- Está bem, disse o Criador. E a devolveu.Mas, três dias depois, o homem voltou e disse:- Senhor, eu não sei. Eu não consigo explicar mas, depois de toda esta minha experiência com esta criatura, cheguei à conclusão que ela me causa mais problemas do que prazer.Peço-lhe, tomá-la de novo! Não consigo viver com ela!O Criador respondeu:- Mas também não sabe viver sem ela. E virou as costas para o homem e continuou seu trabalho.O homem desesperado disse:Como é que eu vou fazer? Não consigo viver com ela e não consigo viver sem ela.E arremata o Criador:- Achei que, com as tentativas, você já tivesse descoberto.Amor é um sentimento a ser aprendido. É tensão e satisfação.É desejo e hostilidade. É alegria e dor. Um não existe sem o outro. A felicidade é apenas uma parte integrante do amor.Isto é o que deve ser aprendido. O sofrimento também pertence ao amor. Este é o grande mistério do amor. a sua própria beleza e o seu próprio fardo. Em todo o esforço que se realiza para o aprendizado do amor é preciso considerar sempre a doação e o sacrifício ao lado da satisfação e da alegria. A pessoa terá sempreque abdicar de alguma coisa para possuir ou ganhar uma outra coisa. Terá que desembolsar algo para obter um bem maior e melhor para sua felicidade. É como plantar uma árvore frente a uma janela...Ganha sombra, mas perde uma parte da paisagem.Troca o silêncio pelo gorgeio da passarada ao amanhecer. É preciso considerar tudo isto quando nos dispomos a enfrentar o aprendizado do AMOR."(Lenda narrada pelo escritor amaricano Walter Trobisch,em seu livro "Amor, sentimento a ser aprendido")
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