Thursday, August 31, 2006

Prazer da poesia

Do prazer da poesia falou T. S. Eliot considerando-o como a primeira finalidade social da poesia. Diz ele: [...] se queremos encontrar a finalidade social essencial da poesia, teremos de examinar primeiramente as suas funções mais óbvias, aquelas que terá de realizar, para realizar quaisquer que sejam. Julgo que a primeira sobre a qual podemos ter certeza é a de que a poesia deve dar prazer. Se me perguntarem que espécie de prazer, apenas poderei responder que aquela espécie de prazer que a poesia dá [...].
Luiz Serrano

Tuesday, August 29, 2006

Para o mar Maria ia

Para o mar Maria ia
Para o mar ia
Para o mar ia
Ao pisar a fina areia
Em hora de maré cheia
O mar ia até Maria
O mar ia até Maria
O mar ia
O mar ia

Maria
Mar em trânsito...

(eliane stoducto)

Palavras de Alceu a Safo

Ó cheia de pureza,
ó Safo coroada de violetas que docemente ris:
eu te diria de bom grado certa coisa,
se não fosse a vergonha que me impede.

Resposta de Safo a Alceu
Se quisesses tão só o bom e o belo,
se em tua boca más palavras não tramasses,
não haveria essa vergonha nos teus olhos e poderias exprimir-te francamente.

Monday, August 28, 2006

Quatro monges

Quatro monges decidiram meditar em silêncio completo, sem falar por duas semanas. Na noite do primeiro dia a vela começou a falhar e então apagou.O primeiro monge disse:- Oh, não! A vela apagou!O segundo comentou:- Não tínhamos que ficar em silêncio completo?O terceiro reclamou:- Por que vocês dois quebraram o silêncio?Finalmente o quarto afirmou, todo orgulhoso:- Aha! Eu sou o único que não falou!
conto zen

Não tenho nada

Um jovem monge aproximou-se de Chao-chou muito orgulhoso e eufórico, e disse:- Me desfiz de tudo o que tinha! Minhas mãos estão vazias e vim à vós com o coração sereno!- Então resta apenas desfazeres-te disso, e chegarás ao Zen.- Afirmou o mestre. - Mas, - replicou o monge - não tenho mais nada. Do que mais posso me desfazer?- Tudo bem, - comentou o sábio, - se tu queres manter o Nada que ainda carregas, fique com ele...
conto zen

Thursday, August 24, 2006

She`s waiting for another love















Ela é a noiva dos pássaros e transporta a mensagem da boa nova,
ela é a Vénus por todos sonhada,
a voraz caçadora de homens que a todos promete o prazer,
ela é a megera a prostituta e a sibila e renasce do gelo e quebra as vidraças.

microimpressões poéticas por Artur Paiva

imagem zanovi

Eugénio de Andrade I



Friday, August 18, 2006

Nao sei se é amor que tens











Não sei se é amor que tens, ou amor que finges,
O que me dás. Dás-mo.
Tanto me basta.
Já que o não sou por tempo,
Seja eu jovem por erro.


Pouco os deuses nos dão, e o pouco é falso.
Porém, se o dão, falso que seja, a dádiva
É verdadeira. Aceito,
Cerro olhos: é bastante.
Que mais quero?
Pessoa

Olhando o mar, sonho sem ter de quê











Olhando o mar, sonho sem ter de quê.
Nada no mar, salvo o ser mar, se vê.
Mas de se nada ver quanto a alma sonha!
De que me servem a verdade e a fé?



Ver claro! Quantos, que fatais erramos,
Em ruas ou em estradas ou sob ramos,
Temos esta certeza e sempre e em tudo
Sonhamos e sonhamos e sonhamos.

As árvores longínquas da floresta
Parecem, por longínquas, 'star em festa.
Quanto acontece porque se não vê!
Mas do que há pouco ou não há o mesmo resta.

Se tive amores? Já não sei se os tive.
Quem ontem fui já hoje em mim não vive.
Bebe, que tudo é líquido e embriaga,
E a vida morre enquanto o ser revive.

Colhes rosas? Que colhes, se hão-de ser
Motivos coloridos de morrer?Mas colhe rosas.
Porque não colhê-las
Se te agrada e tudo é deixar de o haver?
Fernando Pessoa

A NOITE DISSOLVE OS HOMENS




















A noite desceu. Que noite!
Já não enxergo meus irmãos.
E nem tampouco os rumores
que outrora me perturbavam.


A noite desceu. Nas casas,
nas ruas onde se combate,
nos campos desfalecidos,
a noite espalhou o medo
e a total incompreensão.
A noite caiu. Tremenda,
sem esperança... Os suspiros
acusam a presença negra
que paralisa os guerreiros.
E o amor não abre caminho
na noite. A noite é mortal,
completa, sem reticências,
a noite dissolve os homens,
diz que é inútil sofrer,
a noite dissolve as pátrias,
apagou os almirantes
cintilantes! nas suas fardas.
A noite anoiteceu tudo...
O mundo não tem remédio.
Os suicidas tinham razão.

Aurora,
entretanto eu te diviso, ainda tímida,
inexperiente das luzes que vais acender
e dos bens que repartirás com todos os homens.
Sob o úmido véu de raivas, queixas e humilhações,
adivinho-te que sobes, vapor róseo, expulsando a treva noturna.
O triste mundo fascista se decompõe ao contato de teus dedos,
teus dedos frios, que ainda se não modelaram
mas que avançam na escuridão como um sinal verde e peremptório.
Minha fadiga encontrará em ti o seu termo,
minha carne estremece na certeza de tua vinda.
O suor é um óleo suave, as mãos dos sobreviventes se enlaçam,
os corpos hirtos adquirem uma fluidez,
uma inocência, um perdão simples e macio...
Havemos de amanhecer. O mundo
se tinge com as tintas da antemanhã
e o sangue que escorre é doce, de tão necessário
para colorir tuas pálidas faces,
aurora.
ANDRADE, Carlos Drummond de. Poesia e Prosa. Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1983

Wednesday, May 17, 2006

lenda indiana sobre a criação da mulher

"Diz a lenda que o Senhor, após criar o homem e não tendo nada sólido para construir a Mulher, tomou um punhado de ingredientes delicados e contraditórios, tais como timidez e ousadia, ciúme e ternura, paixão e ódio, paciência e ansiedade,alegria e tristeza e assim fez a Mulher e a entregou ao homem como sua companheira.Após uma semana, o homem voltou e disse:- Senhor, a criatura que você me deu faz a minha vida infeliz.Ela fala sem cessar e me atormenta de tal maneira que nem tenho tempo para descansar. Ela insiste em que lhe dê atenção o dia inteiro...e assim as minhas horas são desperdiçadas. Ela chora por qualquer motivo e fica facilmente emburrada e, às vezes, muito tempo ociosa. Vim devolvê-la porque não posso viver com ela.Depois de uma semana o homem voltou ao Criador e disse:- Senhor, minha vida é tão vazia desde que eu trouxe aquela criatura de volta! Eu sempre penso nela, em como ela dançava cantava, como era graciosa, como me olhava, como conversava comigo e como se chegava a mim. Ela era agradável de se ver e de acariciar. Eu gostava de ouvi-la rir. Por favor, me dê ela devolta.- Está bem, disse o Criador. E a devolveu.Mas, três dias depois, o homem voltou e disse:- Senhor, eu não sei. Eu não consigo explicar mas, depois de toda esta minha experiência com esta criatura, cheguei à conclusão que ela me causa mais problemas do que prazer.Peço-lhe, tomá-la de novo! Não consigo viver com ela!O Criador respondeu:- Mas também não sabe viver sem ela. E virou as costas para o homem e continuou seu trabalho.O homem desesperado disse:Como é que eu vou fazer? Não consigo viver com ela e não consigo viver sem ela.E arremata o Criador:- Achei que, com as tentativas, você já tivesse descoberto.Amor é um sentimento a ser aprendido. É tensão e satisfação.É desejo e hostilidade. É alegria e dor. Um não existe sem o outro. A felicidade é apenas uma parte integrante do amor.Isto é o que deve ser aprendido. O sofrimento também pertence ao amor. Este é o grande mistério do amor. a sua própria beleza e o seu próprio fardo. Em todo o esforço que se realiza para o aprendizado do amor é preciso considerar sempre a doação e o sacrifício ao lado da satisfação e da alegria. A pessoa terá sempreque abdicar de alguma coisa para possuir ou ganhar uma outra coisa. Terá que desembolsar algo para obter um bem maior e melhor para sua felicidade. É como plantar uma árvore frente a uma janela...Ganha sombra, mas perde uma parte da paisagem.Troca o silêncio pelo gorgeio da passarada ao amanhecer. É preciso considerar tudo isto quando nos dispomos a enfrentar o aprendizado do AMOR."(Lenda narrada pelo escritor amaricano Walter Trobisch,em seu livro "Amor, sentimento a ser aprendido")

Tuesday, April 25, 2006

UNA ESPECIE DE LUZ

¿Qué es lo que amo, cuando amo a Dios?
No una belleza corpórea, ni una armonía temporal, ni el brillo de la luz, tan apreciada por estos ojos míos; ni las dulces melodías y variaciones tonales del canto ni la fragancia de las flores, de los ungüentos y de los aromas, ni el maná ni la miel, ni los miembros atrayentes a los abrazos de la carne.
Nada de esto amo cuando amo a mi Dios.
Y, sin embargo, amo una especie de luz y una especie de voz, y una especie de olor, y una especie de comida, y una especie de abrazo cuando amo a mi Dios, que es luz, voz, fragancia, comida y abrazo de mi hombre interior. Aquí resplandece ante mi alma una luz que no está circunscrita por el espacio; resuena lo que no arrastra consigo el tiempo; exhala sus perfumes lo que no se lleva el viento; se saborea lo que la voracidad no desgasta; queda profundamente inserto lo que la saciedad no puede extirpar.
Esto es lo que amo cuando amo a mi Dios.
SAN AGUSTIN

Wednesday, April 19, 2006

SUTRA DOS MISTÉRIOS MAGNÍFICOS

Sem o vazio, não há forma. Sem forma, não há o vazio. É como a lua e o brilho da lua — do princípio ao fim, ambos são indissociáveis.

ÁRVORE


Pense numa árvore. Ao pensar nela, você tende a pensar num objeto distintamente definido; e num certo nível [...] é isso mesmo. Mas quando você olha mais de perto para a árvore, percebe que em última análise ela não tem existência independente. Ao contemplá-la, verá que ela se dissolve numa rede extremamente sutil de relações que se estende por todo o universo. A chuva que cai em suas folhas, o vento que a balança, a terra que a alimenta e sustenta, todas as estações e o tempo, o luar, a luz das estrelas e o sol — tudo isso é parte dessa árvore. À medida que você começa a pensar mais e mais sobre a árvore, descobre que tudo no universo ajuda a fazer parte dela o que é; que ela não pode em momento algum ser separada de qualquer outra coisa; e que é o significado que queremos dar quando dizemos que as coisas são vazias, que não têm existência independente.
(Sogyal Rinpoche, O Livro Tibetano da vida e da morte)

Friday, April 14, 2006

TAO













Rising and Passing
Creationa and Annihilation,
Birth and Death,
Joy and Grief,
They are meshed in one another-
Goethe

Sunday, April 09, 2006

...















Sem começo, sem fim Sem passado, sem futuro. Um clarão de luz circunda o mundo do espírito.Esquecemo-nos uns dos outros, puros, silenciosos, vazios e onipotentes. O vazio é atravessado pelo brilho do coração celeste.Lisa é a água do mar e a lua se espelha em sua superfície.Apagam-se as nuvens do espaço azul; lúcidas cintilam as montanhas. A consciência se dissolve em contemplação.Solitário, repousa o disco da lua.
(Hui Ming Ging, O livro da Consciência e da Vida - 1729)

MANDALA











Do sânscrito, centro, círculo ou círculo mágico, é um instrumento de contemplação, meditação, concentração e relaxamento. Representa o mapa do cosmos, a projeção geométrica do mundo reduzida a uma amostra essencial, totalizante, o todo organizado de cujo centro flui a energia integradora. A Mandala é um objeto com função lúdica-terapêutica. Um jogo sensual sem objetivo explícito. Seus múltiplos movimentos estimulam a motricidade, enquanto revelam imagens da organização interior da pessoa, consciente ou inconscientemente. A Mandala abstrai do caótico mundo exterior, ao concentrar a imaginação num objeto que nada exige das habilidades intelectuais e que responde à ansiedade gerada pelo consumo e desperdício tecnológico com a sabedoria do singelo e original. As mandalas e sua composição fascinam pela magia de seus movimentos. São exemplos e símbolos destinados a exprimir as possibilidades infinitas do subconsciente humano. Originadas na Índia, porém foi no Tibet onde a mandala alcançou seu mais pleno e complexo desenvolvimento tanto artístico como ritual meditativo, enfatizando a integração cósmica. Richard Wilhelm, recopilador do livro "I Ching, o livro das mutações" estudou o papel das Mandalas nas diferentes culturas hindú, tibetana, budista, cristã (até princípios da idade média), esotéricas, etc. O psicólogo suíço Carl G. Jung aprofundou os estudos de Wilhelm, descobrindo que seus pacientes melhoravam ou se tranqüilizavam usando a Mandala. Antigamente os grandes mestres desenhavam Mandalas na terra e mais tarde em panos com complicados desenhos e cores, frente às quais meditavam seus discípulos, na procura do seu próprio caminho espiritual, sua iluminação ou nirvana.Também era usada em processos de cura, com a pessoa no centro da Mandala. O casal José e Míriam Argüelles, que depois de Jung foram os maiores pesquisadores e estudiosos da Mandala, consideram que é um instrumento básico para a segunda e maior fase de crescimento do ser humano; aquela que inicia quando os fundamentos do crescimento físico "cessam" (aproximadamente aos 25 anos); quando começa o desenvolvimento e coordenação das capacidades mais intuitivas. Enfatizam que a meta é atingir com o seu uso, o maior grau de integração com o Todo e sentir o impulso em direção a Totalidade. Esse impulso, motivará seus pensamentos, passará para suas atividades e estará vivo em tudo que constrói. E aí um estágio sagrado de consciência será atingido no qual todos os seres e todas as coisas serão consideradas como emanações da Unidade Divina Total.
(não recordo o autor...)

Wednesday, March 29, 2006

A interpretaçao de lilith


"Durante meus anos de prática astrológica, tenho utilizado a Lua Negra em todas as minhas análises de mapas natais, como complemento da interpretação da Lua. Jamais pensei em ignorar esta influência. A Lua Negra descreve nosso relacionamento com o Absoluto, com o sacrifício como tal, e mostra-nos como abrimos mão de certas coisas. Em trânsito, a Lua Negra indica-nos alguma forma de castração ou frustração, freqüentemente nos assuntos relacionados ao desejo; uma incapacidade da psique; ou uma inibição em geral. Por outro lado também indica nossas áreas de autoquestionamento, a nossa vida, nossos trabalhos, nossas crenças. Acho que é isto é importante, pois nos dá a oportunidade de abrir mão de algo. A Lua Negra mostra onde podemos deixar que a Totalidade fale dentro de nós, sem atravessar um “eu” pelo caminho, sem erigir um muro formado pelo nosso ego. Ao mesmo tempo, ela não nos indica a passividade. Ao contrário, simboliza a firme vontade de mantermo-nos abertos e confiantes, de deixar que o Mundo Transcendental infiltre-se em nós, confiando inteiramente nas grandes leis do Universo, naquilo que chamamos Deus. A fim de nos preparar para essa abertura, a Lua Negra cria um vazio necessário." (Joëlle de Gravelaine in "Lilith und das Loslassen", Astrologie Heute Nr. 23)

Saturday, March 18, 2006

DO OUTRO LADO DO RIO





— Ei, senhor.
Sentado na popa de sua canoa, um remador fazia-me sinais há algum tempo.
— Ei.
— Quer atravessar?
— Não sei ainda. Mais tarde.
— O outro lado do rio é bonito.
— É bonito ou está bonito?
Ele não entendeu, ou então não quis estabelecer diferença. Para que? Miudezas. Olhava-me com ar absorto e com a paciência de quem lida com viajantes indecisos. Vi que uma barba rala e alourada cobria-lhe o rosto, e que tinha o nariz curvo. A cabeça encoberta por um chapéu de palha mostrava apenas a sombra dos olhos. Visto de perfil, parecia velho, mas ainda robusto, e com um jeito afiado de ave de rapina pousada num galho.
Continuei a olhar o rio, que parecia estancado, sem correnteza, mas movimentava de leve as águas, de forma a escorrer de forma quase imperceptível. A água não estava escura ou baça, nem clara. Parecia água nova, trazida das cabeceiras onde decerto chovera. Mas não estava barrenta. Mesmo sem transparência, transmitia uma superfície de espelho.
— Está assim há dias — disse o remador.
— O quê?
— A água do rio. Costuma ser clara, fina. Choveu, o leito subiu e a correnteza parou.
— O senhor é canoeiro há muito tempo?
— Desde menino.
Puxou mais o chapéu sobre os olhos, como a proteger-se de uma luz cegante, e recordou que, antes da ponte, a travessia era feita em canoas chamadas besouros. Alongadas, com duas tábuas atravessadas à guisa de bancos, algumas tinham motor de popa. O motor chiava, por isso deram-lhes o nome de besouros. Atravessava-se o rio recebendo na roupa salpicos de água. Às vezes a superfície do rio rolava grossa, como um tapete sujo a distender-se, e nesse caso as canoas oscilavam, emborcavam. Quem não soubesse nadar, afogava-se.
— O senhor socorreu algum viajante?
— Não fui feito para essas coisas — respondeu em tom seco.
O sol voltara a luzir por entre gotículas da água suspensas. Um arco-íris foi-se delineando do outro lado do rio, ao longo da encosta verdejante que cobria o litoral. Em baixo, numa enseada indistinta, os pilares da ponte. Não se via movimento na ponte, talvez por causa da distância. Apurei os olhos. Nada, sequer um vulto, nenhum automóvel.
— Ninguém atravessa pela ponte? — arrisquei.
— É uma travessia muito direta, que depende da vontade de cada um. No fundo, meu senhor, ninguém gosta de atravessar.
Não entendi então porque as autoridades mandaram construir a ponte, e porque, havendo ponte, canoas e barqueiros ainda aguardassem viajantes fortuitos.
— Há dois caminhos — o remador voltou a falar, como se me adivinhasse os pensamentos. — As pessoas preferem vir para cá, como se não esperassem encontrar este cais antigo, estas canoas, esta solidão. Chegam e, então, já que aqui se encontram, atravessam. O caminho da ponte é uma escolha deliberada, como eu já lhe disse.
Cala-se, olha o marulhar das águas no casco da canoa. O sol aumenta de intensidade, vejo que o arco-íris do outro lado se vai dissipando. Mas a água nada reflete, é um espelho embaciado.
— Deve ser bonito do outro lado — eu digo.
O remador se agita, seus olhos faíscam sob a aba do chapéu.
— Pode ter certeza, senhor. É um espetáculo.
Um espetáculo. Fico a saborear esta palavra, como quem a mastiga. E, estendendo a vista até o outro lado, encho os olhos com uma encosta ligeiramente escarpada. Está verde, varrida pelo sol, e brilha, brilha como se fosse um vitral do qual se coassem muitas cores, as cores do arco-íris, o verde e o amarelo em predomínio. Um bosque extenso e profundo, sem clareiras, de árvores irmanadas que devem formar uma alfombra com a sua copa generosa. No chão, naturalmente folhas secas, imagino que folhas outonais, ferrugentas, a formarem tapete macio. Olhos d´água, troncos secos que se oferecem como bancos, pedras limosas em que descansar os olhos, lagos de água límpida. E suponho que frutos. O vento espalha a fragrância de suas polpas, o odor de seus líquidos. É, o remador tem razão, deve ser convidativo o outro lado. Deve ser bom.
— Muitos viajantes não voltam para o continente — diz o remador. — Preferem ficar naquela ilha comprida. Alguns pedem que eu espere, querem dar um passeio pelas praias desertas e limpas, querem sentir o perfume das trilhas, saber se vão dar em uma aldeia. Outros mais decididos vão logo dizendo, antes que eu encoste a canoa: ”Não me espere, remador. Eu vou ficar”. Estou acostumado a todas as reações. Sou observador, entende?
Sei que é. Ele se antecipa aos meus pensamentos, adivinha o desenrolar lento das minhas idéias. Um interlocutor desses, eu penso, é um bem na vida. Em geral não nos ouvem. As pessoas fingem escutar, mas em verdade escutam a si próprias, e o fazem por educação, a pensar no que vão dizer, no que desejam ouvir, ou no que pretendem induzir o outro a dizer para que tenham afinal a confirmação da resposta. Ah, é preciso saber escutar, é preciso saber ter ouvidos e fazer com que eles se apurem para ouvir nos momentos certos. Aquele remador tem o instinto da conversa mútua, do diálogo. Com ele o monólogo da vida cessaria, a trituração interior que gera angústias se desfaria em pó com que aspergir e esconjurar todos os nossos espaços vagos.
— A ilha tem nome?
— Não. É apenas o Outro Lado.
— O Outro Lado?
— Sim, senhor. O Outro Lado do Rio.
Duas touceiras de erva sumarenta, muito verde, desciam pelo rio, vagarosas. Sem correnteza levariam horas a chegar a alguma praia, porque os rios sempre despejam suas águas no mar, em outro rio ou num lago. Há sempre uma praia, haverá sempre uma margem em que naufragar ou secar ao sol.
— Baronesas — diz o barqueiro.
— Têm um ar distinto.
— E cobras dentro das touceiras — prossegue o barqueiro. Vira-se, dá uma cusparada no rio. A voz trai um tom de desgosto. Olha as baronesas arrancadas de barrancos, rio acima, na estação das chuvas, e completa: — Vai ser uma longa viagem.
— A não ser que vente — eu digo.
— É, a menos que venha vento forte.
— Acha que vai ventar?
— Não. Hoje o dia escurece cedo, mas sem chuva e sem vento.
— Tem certeza?
— Tenho. É a experiência. O cheiro do vento a gente pega no ar.
Dou alguns passos pela margem de terra nua, sem ervas, com pedregulhos. Ninguém mais, somente eu e o canoeiro, que, com sua calma, parece estar ali à minha espera. Melhor, à minha disposição. O tempo não o incomoda, é como se ele tivesse todo o tempo de uma vida galática, de uma eternidade. Não sou dado a enigmas, mas de súbito me vem a impressão de que marcamos um encontro ali naquela margem deserta, e que ele está ali com a sua canoa para me prestar um serviço, para levar-me à outra margem. Mas como saberia que eu, nas minhas andanças às vezes sem rumo, contemplativo, imerso em meditações, iria dar ali, naquele antigo cais de um tempo em que havia uma chusma de canoeiros e viajantes ávidos por escarpas verdes do outro lado do rio turvo?
— Está com medo? —pergunta o canoeiro.
— Medo? De que? De quem?
— Não sei. Talvez medo do senhor mesmo. Ou de mim.
— O senhor não me fez mal.
— Nem farei. Estou aqui somente para levá-lo, se quiser atravessar. Se sentir que chegou a sua hora de atravessar.
— Como vou saber? Nunca tenho certeza de nada. Certeza somente a de estar vivo
— Ainda bem. Tem pelo menos esta, que explica o medo.
— Como assim?
— O senhor sabe que está vivo e isso lhe dá medo. Estar vivo é bom, mas o bem não dura. Nada na vida está em repouso permanente, nem mesmo as pedras, que um dia se transformam em pó.
— E qual seria o estado perfeito, o bem-estar supremo?
— O não-ser. Aquela noite escura, de uma escuridão total, sem desejos, sem necessidades.
— Uhm... Alguém já disse isso com outras palavras. Creio que foi Schopenhauer, um filósofo pessimista. Não se deve temer o não-ser, porque dele viemos. Ao existir, vemos então que o não-ser tem suas vantagens. Estar vivo é um problema. A vida seria, nesse caso, o medo crescente de algo melhor. Estou certo?
— Para mim, está. O maior sinal de cultura consiste em perder o medo. É preciso atravessar, atravessar sempre.
Começo a examinar melhor o remador. Humilde, mal vestido, pés no chão, e, no entanto, idéias profundas. Quem o teria ensinado a filosofar? Quem o teria aproximado de mistérios?
Do outro lado do rio o litoral escarpado adquire uma tonalidade enfermiça de poente. Cores desmaiadas, com a luminosidade mortiça de velas. Mas seriam muitas velas juntas, e todas acesas, e por isso ali não se fazia noite, a luz resistia às trevas, tangia a noite, que já começava a tombar, para o lado de cá, onde estávamos o remador e eu. E a noite, desdobrando a sua capa sobre o rio, enlutava definitivamente os restos de um dia a apagar-se.
O remador protege o pescoço com a gola aberta do casaco. Dou um passo hesitante, talvez movido pela necessidade de fazer um movimento, na direção da canoa. Ainda não sei se vou atravessar o rio.
— Resolveu atravessar ? — pergunta o remador, com um, sorriso que me parece irônico.
— Acho que sim. Afinal, do outro lado há luz.
— Os poentes são sempre longos na Ilha do Outro Lado.
Sento-me na tábua do meio da canoa. O remador entra na água rasa e dirige-se à margem. Com certeza vai impelir a canoa para longe da areia, para o fundo, antes de tomar do remo e iniciar a travessia.
A noite cai depressa, como se alguém no alto soltasse as dobras de uma cortina escura. A canoa oscila, a água bate nos costados e na proa, em baques fofos, um vento morno, com um toque de frio, me percorre o corpo, deixa uma sensação de carícia. As mãos coçam. Estão ocupadas com o remo, na verdade empunham o remo, sou eu, afinal, quem rema nesta canoa — o único a remar. O canoeiro ficou em terra, seu perfil recurvo absorvido pelo silêncio, pelas trevas.
Eu remo de coração leve para o âmago da noite ou para o facho de luz, não sei bem. A luz que me parecia brotar da Ilha do Outro Lado brilha agora no antigo cais onde embarquei. E as trevas do velho cais caem sobre a Ilha, lhe acentuam a silhueta esguia.
Para onde vou? Perdi a minha última certeza. Sei apenas que é preciso remar. Devo estar no meio do rio, o medo vem de novo e me sufoca o peito. Ignoro qual a margem certa, não sei mais como voltar nem aonde ir. Estou remando para a noite definitiva ou para o lívido alvorecer?(Do livro Contos da Noite Fechada, 2004)